Cracolândia: repressão não é a solução

Na manhã do último domingo (21/05), os principais jornais da cidade de São Paulo destacavam a operação da prefeitura para acabar com a cracolândia no centro da cidade. Em meio ao escândalo político que assola o país, a notícia ficou um pouco escondida, mas não passou despercebida.

A política de redução de danos um dia idealizada para administrar o problema deu lugar a uma ação repressiva, exemplo tentado em várias partes do mundo ao longo do tempo sem muito resultado. A ação foi justificada pelas bandeiras de se prender traficantes e construir casas para os moradores da Rua Helvética, como se os traficantes dali fossem os grandes responsáveis e como se casas pudessem ser construídas em algumas horas.

O problema de acreditar que a ação repressiva vai resolver o problema é ignorar a história. Para piorar, os grandes órgãos de comunicação compram esta ideia e influenciam uma legião de pessoas que, em muitos casos, disseminam ódio e reforçam preconceito em comentários pela internet.

Ao ler comentários relacionados à notícia, é perceptível o número de pessoas que usam termos como “limpar”, “varrer”, “acabar com” como forma de apoio à ação do prefeito Dória.

A impressão que dá é que a preocupação é estritamente estética, para que a “sujeira” suma da vista, levada para além do horizonte ideal. Pessoas que querem que o problema seja varrido para debaixo do tapete, sem levar em conta que são vidas humanas em jogo e que o problema não é de caráter, mas de saúde pública.

“Adote um viciado!”; “gostou leva para casa!”. Termos assim são facilmente ouvidos quando se tenta explicar que a repressão não é a solução. Muitos que dizem que fumar crack é coisa de vagabundo não conseguem largar o cigarro por conta da dependência da nicotina, ou não conseguem ficar sem beber, por dependência do álcool, sem contar os dependentes  de medicamentos, entre outros. O problema é sempre o outro, nunca o preconceito, nunca a falta da informação, nunca o estereótipo, nunca o próprio umbigo.

Por outro lado, é muito fácil realizar uma ação midiática para reprimir os mais fracos na cadeia da droga. A pergunta que se faz é: quem são os barões que fornecem para essas pessoas? Porque os figurões não são presos e não recebem o mesmo tratamento da polícia? Alguém lembra o que aconteceu com o helicóptero recheado de cocaína que tinha ligação com tubarões da política?

E a solução? Obviamente, como qualquer problema complexo a solução é complexa e passa pelo controle da droga na entrada do país, programas educacionais de prevenção ao uso, programas de saúde pública, debates sociais sobre o uso abusivo de drogas, parcerias com instituições que entendem do assunto como clínicas de tratamento e muitas outras ações que devem integrar um plano estratégico para esta finalidade. Reprimir, por outro lado, é só mais uma ação midiática que não resolve nada, no máximo muda o problema de lugar.

 

 

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