Estigma social na raiz do combate às drogas

“Tinha que ser esse drogado!”

Dia 26 de junho, “Dia Mundial de combate às drogas”. Esta é uma data que, acima de tudo, deve servir para a reflexão sobre quem é o grande mal a ser combatido: o estigma social.

O estigma social é um mal tão grande que deturpa o sentido da luta contra as drogas e motiva a criação de políticas públicas que representam verdadeiros retrocessos.

Quer um exemplo?

Quando o poder público de uma das maiores metrópoles do mundo derruba construções com pessoas dentro com o objetivo de acabar com a cracolândia, não está combatendo as drogas. Quando o mesmo poder passa por cima do Ministério Público e de programas desenvolvidos por profissionais da saúde que dedicaram sua vida para tirar pessoas em situação de risco da drogadição, também não está combatendo as drogas. Ele está combatendo pessoas doentes, seres humanos fragilizados.

Esta faxina social serve apenas para tirar da vista um problema que não é tão simples de resolver. Empurra-se o dependente químico em situação de vulnerabilidade para fora do horizonte observável, manda-o de volta para sua cidade, desinfeta-se o centro. O estigma está no centro deste tipo de política excludente ao extremo.

O estigma está em todos os lugares, basta olhar com atenção. Está presente nos jornais, quando estampa em suas manchetes termos como “viciado”, “drogado”; está na boca do povo nas mídias sociais, servindo como qualificador para atitudes infelizes de celebridades: “você viu aquele ator, o que fez? Lógico, é um drogado”; o estigma também está presente na cena pública, quando o político – suspeito de corrupção, de caixa 2, de propina, de favorecer familiares e outras denúncias – fica estigmatizado como o “cheirador de pó”.

Infelizmente, o estigma também está dentro de casa, quando o familiar julga o dependente químico, condenando-o e prejudicando as mínimas chances de reabilitação; ou quando o próprio usuário de drogas se condena, criando monstros internos, enchendo-se de culpa, o que o leva a condições ainda mais prejudiciais para sua saúde.

Existem muitos perigos quando se estigmatiza um problema de saúde tão grave. 1) O usuário de drogas, sobretudo as ilícitas, é julgado pela sociedade como se seu problema fosse de caráter (se é drogado, é bandido e bandido bom é bandido morto); 2) A sociedade é levada a crer que apenas com repressão é possível resolver o problema das drogas (tem que eliminar essa corja da face da Terra); 3) o estigma do “drogado” é ainda mais letal quando associado a outros que envolvem racismo, homofobia e outras formas de preconceito.

Dependência química é questão de saúde pública. Ninguém vive nas condições arriscadíssimas que um usuário de drogas pesadas nas cracolândias pelo país porque quer.

Estigma social: o consumo de álcool é relativizado

Álcool e crack são substâncias psicoativas que alteram o funcionamento do cérebro, ou seja, são drogas. A diferença é que uma a gente aceita e até estimula, a outra a gente condena. Esquecemo-nos, apenas, que mais de 3,3 milhões de pessoas morrem anualmente em consequência do álcool, seja por doenças ou em acidentes provocados por pessoas embriagadas, anualmente, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS).

Se o político é corrupto, não utilize o seu suposto uso de drogas para qualificá-lo como o pior político do Brasil; se o ator cometeu contravenção, não use sua dependência química para pré-julgá-lo; se há um problema de drogas dentro de sua casa, não deixe que o estigma social seja maior que sua capacidade de ajudar a pessoa com problemas; se você tem problemas com drogas, não deixe que o estigma atrapalhe em sua busca pela reabilitação.

Quando se trata de combate às drogas, temos um grande inimigo em comum. Ele é o estigma social, não o dependente químico.

Equipe CTViva

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